Estado de Espírito


Uma luz suave, um aroma no ar. A noite estende-se. Uma brisa infiltra-se por entre as cortinas, a mais fria desde há meses. O silêncio reina. Nada impede o próximo parágrafo de ser escrito. Ainda assim, as palavras não surgem.

Falta qualquer coisa.

Talvez seja fome?
A loiça espalhada em redor discorda.

Talvez seja conforto?
A cadeira range, ofendida.

Talvez seja a luz suave,
ou talvez seja o cheiro no ar.
A vela aromática apaga-se.

Mais algumas horas e nasce o sol.

Talvez seja o frio,
ou talvez o mexer das cortinas.
A janela fecha-se.

Uma música calma começa a tocar.

Onde estão elas? Eu fiz tudo o que pude.

Imaginem atirar pão e não virem os pombos.
Imaginem estar deitado e passar a noite acordado.

Quando as coisas têm tudo para funcionar e não funcionam, o que pensar?

Talvez os pombos não tenham fome.
Talvez, simplesmente, não tenha sono.

Podemos tentar tudo para que as coisas funcionem, mas se não tivermos em conta o estado de espírito, é inútil.

Quando me sento para escrever, muitas vezes não consigo. Às vezes estou a meio de algo importante e bate uma vontade incontrolável de escrever. E as palavras surgem sem parar; frases, parágrafos, capítulos. Às vezes dura semanas, mas nunca dura para sempre.

O estado de espírito varia, e com ele a capacidade de fazer certas coisas em relação a outras. Agora apetece-me fazer isto, mas amanhã quero criar uma série de 20 episódios com um conceito completamente diferente. Hoje sinto-me extrovertido, vou dar 5 festas antes do fim do ano. Quem era aquela pessoa ontem que decidiu organizar tudo isto? Eu só quero estar sossegado a escrever.

Às vezes a mudança é tão repentina que até eu me perco. É como se várias pessoas dentro de mim quisessem expressar as suas personalidades radicalmente diferentes, mas só uma o pode fazer de cada vez. Então lutam. E pior, raramente apreciam os interesses das outras, pelo que todo o trabalho que é feito deixa de fazer qualquer sentido de um dia para o outro. Mesmo que as palavras apareçam, quanto tempo durarão? E lá se foram elas.

Penso que, acima de tudo, o meu maior desafio é aprender a lidar com isto.

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