Muitas Ideias e um Péssimo Costume | ACMA

Admito: tenho um grande problema. Talvez pela minha mente ser um turbilhão de ideias e picos de motivação, é costume querer fazer tudo e nunca acabar nada. Quando vi o tema do ACMA deste mês, soube logo sobre o que iria escrever - o costume de não acabar nada.


É algo que tenho noção que não acontece só comigo. Aliás, é algo que tenho noção de acontecer principalmente a pessoas bastante capazes, mas cujo estado de espírito determina a essência, a rapidez e a qualidade daquilo que fazem. Mesmo quando me tento organizar, se hoje é dia gravar um vídeo mas apetece-me escrever, cinco capítulos serão escritos, mas nenhum vídeo será gravado.

Há um ano atrás decidi regressar ao meu canal no YouTube, prometendo a mim mesmo que todas as terças-feiras um vídeo novo seria publicado. Comecei também um outro canal de gaming e investi nele quase tanto como no primeiro. Hoje, ambos estão à espera que me lembre que eles existem. É difícil fazer vídeos quando criar jogos requer tanto tempo e dedicação. Hoje, tenho dois jogos tão perto de estarem concluídos e serem publicados. Dois, porque quando o primeiro estava nas últimas fases de produção, a motivação esfumou-se. Ideias para um outro jogo fervilhavam em mim... e eu deixei-me levar. E assim ficaram os canais no YouTube, o livro que se prolonga há 7 anos, os projectos de vídeo com conceitos fantásticos, os jogos tão perto de estarem acabados, e até mesmo este blog.

Quando decidi entrar no projecto ACMA, não o fiz para promover este blog que pouco tem. Antes pelo contrário, a intenção foi sempre expor os meus pontos de vista, pensamentos e ideias num espaço que poderia chegar a mais pessoas. Um espaço que há muito os meus outros interesses não me permitiam ter. Só precisava de me forçar uma vez por mês a fazê-lo. Mas, eu simplesmente não funciono assim. De novo o foco da minha dedicação foi para aquilo que mais me motivava no momento.

Apesar do tom deste texto, não estou aqui para me queixar. Eu não me conformo com a mentalidade de "é assim a vida" e "deixa andar". Quando me apercebo que algo acontece, questiono-me constantemente sobre isso. Depois de reconhecer algo de errado em mim, a melhor coisa a fazer é chegar à raiz do problema e tentar perceber porquê. Ao prestar atenção às circunstâncias em que perdia o interesse pelos meus projectos, cheguei a algumas conclusões e vou partilhar as 3 que considero mais importantes:

1. Perfeccionismo - É quase um cliché: quando numa entrevista de emprego perguntam "qual é o seu maior ponto fraco" responder com "ser perfeccionista". No entanto, isto pode ser uma barreira bem real, na qual aliás eu esbarro constantemente. O livro que antes mencionei não está a demorar 7 anos a fazer porque é super longo, mas sim porque estou sempre a reescrevê-lo. Para mim, nunca está suficientemente bom e pesa-me na consciência publicar algo que sei que conseguiria melhorar. A mesma coisa com o meu jogo mais recente, cada vez me sinto menos motivado a continuá-lo porque nunca está como eu o visionei idealmente. Não é que nenhum destes exemplos seja mau, sempre que os mostro a alguém recebo elogios e força para continuar, o problema está com o meu maldito perfeccionismo.

2. Ambiente - Este é sem dúvida o aspecto mais frustrante de todos. Tudo o que me rodeia - o local onde estou, as pessoas com quem falo, as notícias que leio, as músicas que ouço, os vídeos que vejo, as coisas que acontecem, até mesmo o tempo ou hora do dia - é capaz de me afectar desde querer fazer tudo, a não querer fazer nada, a fazer algo completamente diferente do que alguma vez fiz. No que toca a começar um projecto que requer bastante tempo e empenho, levá-lo ao fim torna-se extremamente difícil quando nenhuma das circunstâncias que levaram à sua criação se aplicam a meio do caminho. O pior é que não posso controlar a maior parte destas coisas. Talvez por este motivo eu prefira manter-me isolado de coisas tão básicas como sair à rua ou ver um filme. Por muito que isto pareça estranho a quem está de fora, é apenas uma tentativa de reduzir variáveis e manter um estado de espírito constante.

3. Dificuldades - Em qualquer projecto surgem problemas. Quer seja o famoso "bloqueio de escritor" a meio de uma história, ou um bug na criação de um jogo que de maneira nenhuma dá para resolver sem um ou dois teclados partidos. Dificuldades surgem em todos os aspectos da vida e, apesar de tudo, não considero que sejam uma grande barreira por si só. Eu adoro receber críticas construtivas. Adoro analisar quando alguém está a fazer beta testing de um jogo, apontar todos os problemas que vejo e encarar a sua resolução como um puzzle ou um desafio. O verdadeiro monstro das dificuldades é quando estas entram em conflito com os dois pontos anteriores. Muitas vezes fico preso num problema que surge na criação de um projecto, às vezes por semanas. O problema em si acaba por ser resolvido, quer por chegar à sua raiz e resolvendo-o com muita persistência, quer alterando completamente a ideia original para que funcione melhor. Mas até esse problema estar resolvido, o ambiente mudou. Questões sobre o quão bom está de facto o projecto começam a surgir, esse maldito perfeccionismo. Quando isto começa a acontecer, eu posso até ter superado o bloqueio de escritor ou esmagado o "bug" irritante, mas agora na minha mente todo o projecto está em causa. Posso já não estar motivado para o continuar. Posso achar que tudo o que já fiz não está bom o suficiente. A meu ver, as dificuldades acabam por ser mais um teste à capacidade de manter um estado de espírito estável do que uma barreira imposta por um problema.

Dito isto, qual é a conclusão? Sinceramente, não sei. Não sou psicólogo para poder dar conselhos informados sobre como lidar com nenhum destes problemas. A única coisa que espero com esta "crónica" (chamemos-lhe assim) é que mais alguém que passe pelo mesmo se possa rever nas minhas palavras e talvez compreender-se um pouco melhor.

Embora este assunto pareça um pouco tangente ao tema principal deste mês, "Tradições e Costumes", quem passa por isto sabe muito bem o quanto se assemelha a uma tradição. "O quê? Você está a acabar isso? Mas nesta terra ninguém acaba o que está a fazer! É tradição."
Por muito ridículo que pareça, é esta a nossa realidade.

Acima de tudo gostava de apelar ao feedback de todos os que leram este post. Num assunto no qual levanto alguns pontos tão específicos e para o qual não tenho solução, todo o feedback é precioso. Gostava de ler nos comentários em baixo as vossas experiências, opiniões, contra-argumentos, ou qualquer outra coisa que considerem relevante para a discussão.


Este post insere-se no projecto A Cultura Mora Aqui.
Para saber mais sobre o projecto e como participar ver aqui.

Comentários

  1. não há soluções ideias. não há receitas.
    para as nossas dúvidas, surgirão respostas... por vezes temos de dar tempo ao tempo, amadurecer.

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    1. Concordo. Já me apercebi que muitas vezes, com o tempo e quando menos esperamos, as respostas que pareciam inalcançáveis vêm ter connosco.

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