Horário de Inferno

Vou já deixar uma coisa clara: o Inverno é, indubitavelmente, a pior estação do ano. Não é uma questão de opinião, é uma questão de senso comum. Há quem goste de frio e chuva, há quem goste do espírito natalício e de usar três camadas de roupa (já agora, porquê?), mas se colocarmos tudo isso no prato duma balança e, no outro, todas as desvantagens que esta estação trás, torna-se óbvio que "todas as opiniões são válidas" é a coisa mais estúpida que alguém pode pensar.

Antes que os "Olafs" se chateiem comigo por tê-los escolhido como alvo da publicação de hoje, deixem-me explicar bem de onde parte todo este desdém:

Primeiramente, o Verão são só 3 meses. Vá, 4 se tivermos sorte e ele se adiantar ou prolongar um bocadinho. Luz e calor, praia e piscina, gelados e churrascos. Quando chegamos a Outubro, por norma, já tudo isto cessou. É então que começa uma longa e penosa decadência que durará o resto do ano até o ciclo se repetir. Aos meus olhos, parece que o Inverno começa em Novembro e só termina aí por volta de Abril. Mas, pronto, isto também sou eu que me sinto perfeitamente confortável com temperaturas de 40ºC, sei que poucos pensam dessa forma. Ainda assim, porque é que temos de esperar tanto pelas coisas boas que o Verão trás, mas em Julho já estamos a ouvir falar no regresso às aulas e em Outubro no Natal? E não esqueçamos Janeiro e Fevereiro, seus matreiros; acham que passam despercebidos? Inverno não é só Dezembro, e assim que termina a época festiva, as coisas só pioram. As árvores de Natal e decorações luminosas são removidas, mas o frio perdura. Muitas vezes, nem sempre, temos Carnaval em Fevereiro; mas de que serve quando está um frio de rachar? Dançar em cima de um carro alegórico só aquece uma pequena percentagem daquilo que os disfarces importados do (muito mais quente) Carnaval brasileiro expõem. Atiram-se confettis e fitas coloridas, finge-se que não incomoda o ventinho a circular por entre os collants de rede das matrafonas, mas a realidade permanece: o Inverno não presta.

O ano passado, mítico 2020, andavam todos a bater com a cabeça nas paredes devido ao isolamento social, mas sabiam que, à excepção do Natal e do Ano Novo, o Inverno é o período em que mais nos isolamos uns dos outros? É também o período em que mais mortes ocorrem, em que as doenças mais facilmente se espalham, em que o bolor conquista mais território nas paredes, em que animais e sem-abrigo mais sofrem nas ruas. Mas, vejam só, comprei um casaco novo! Não é fantástico o Inverno!?

Quando se fala em cenários apocalípticos, e por muito que uma bomba atómica ou meteorito causem estragos, o mais preocupante acaba por ser sempre o mesmo: um Inverno nuclear; um Inverno vulcânico; um Inverno de impacto. Mesmo quando o problema imediato é o excesso de calor, o mais devastador acaba por ser sempre o Inverno que se segue. Até o fim do universo será um permanente Inverno, pelo menos de acordo com a teoria mais popular.

Dêmos um passo atrás. Afinal, o Inverno não deixa de ser uma fase do ciclo da Natureza. Se não fosse este termo de comparação, as vantagens do Verão não seriam tão apreciadas. Já para não falar que é absolutamente ridículo protestar uma estação do ano. Resta-nos adaptar e lidar o melhor possível com este deprimente período de tempo. E nós, como espécie extremamente inteligente à face deste planeta, sabemos exactamente o que fazer para amenizar o sofrimento, certo? Certo...?

Então, por alma de quem... é que a hora de Inverno existe!?




Sim, tudo até aqui não passou de uma introdução para chegar ao tópico deste texto.

Eu sei que existe História por detrás desta alteração bienal, mas o frio deixou-me preguiçoso e por isso vou ignorá-la. Sabiam que o frio tem esse efeito, de reduzir a produtividade em mim? Além disso, é mais fácil criticar quando não se aborda a totalidade do problema. O que me interessa perguntar é isto:

Quem é que, na plenitude das suas competências cognitivas, pensou: "Sabem o que era mesmo bom? Sol às seis da manhã e escuridão total às seis da tarde!"

Sabeis, santíssimas almas, o quão deprimente é sair da escola ou do trabalho e ver que o dia já terminou? Aposto que muitos de vocês sabem. É horrível. Se havia alteração a fazer, era adiantar ainda mais uma hora além da hora de Verão, nunca reduzir!

E isso é só a ponta do icebergue, que, com estas temperaturas, tão depressa não irá derreter.

Porquê sacrificar uma hora de sono, quando o que mais queremos nesta altura é ficar para sempre enrolados nos lençóis e cobertores da cama? Às vezes, penso se não existem, de facto, forças das Trevas no mundo real e foram elas as responsáveis por esta infeliz ideia. Tudo acerca desta alteração parece que foi talhada ao milímetro para causar o máximo de transtorno e depressão possível.

Mas, tenhamos calma; há luz ao fundo do túnel (e, se tudo correr bem, essa luz durará mais uma hora, mesmo em Dezembro). Existem planos para terminar com a mudança de horário. A grande questão é: qual deles manter? Na verdade, só é questão porque, infelizmente, vivemos numa sociedade que não se rege pelo senso comum. Se dependesse de tal, o horário de Verão reinava todo o ano, sem sombra de dúvidas. Os dias já ficam mais curtos no Inverno, de qualquer forma; é mil vezes preferível não sair deprimido do trabalho do que ter os primeiros raios de luz a bater no focinho quando ainda são horas de dormir.

A situação é mais complicada do que devia ser. Não se decidem qual dos horários manter, e agora parece que a União Europeia vai deixar que cada país decida por si. Acho eu. A minha pesquisa limitou-se a um ou dois artigos e uma página da Wikipedia, mas penso que não esteja muito longe da verdade. Ignorando o absoluto desastre de fusos horários que seria cada país tomar uma decisão diferente, pelo menos há esperança para Portugal. Da ínfima quantidade de portugueses que responderam a uma sondagem sobre o assunto, 79% disseram preferir o horário de Verão. Já foi há algum tempo, mas penso que contribuí para esta estatística. Infelizmente, os outros 21% existem.

Devo confessar que a incerteza de qual decisão será tomada me deixa nervoso. Esperemos que tudo se resolva pelo melhor, mas até lá temo o que os nossos "excelentes" governantes decidam.

A última coisa que eu quero nesta vida é ficar para sempre preso no horário de inferno.

E pronto, assim chegamos ao fim de mais uma publicação que certamente não será nada controversa, nem atrairá o mais profundo dos ódios daqueles que, vá eu algum dia perceber, adoram a época das frieiras nos dedos e das canelas encharcadas. Obrigado pelo tempo, que desde há uns dias começa a escassear.

Estejam à vontade para defender a vossa estação do ano favorita ou o vosso horário de preferência nos comentários. Sei que não fui nada simpático, mas não levem isto demasiado a sério. O mais certo é ninguém persuadir ninguém em relação a este assunto, mas talvez bons argumentos venham ao de cima.

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