Qualidades e Quantidades

Permitam-me a abstracção de quem já deve várias horas à cama. Nem sempre a inspiração surge no momento mais oportuno, mas sem ela a obra não presta e há que aproveitar. Pelo menos, é a essa a minha posição. Vem isto, claro, de quem aqui publica, em média, apenas dois textos por ano.

De que importa algo medíocre quando recebemos tanto dessa coisa? É algo que nunca vou entender. Sem surpresas. Compreender opiniões populares não é o meu forte. Mas, ainda assim, pergunto-me porque tantos se conformam com tão pouco a troco de tanta quantidade.

Sim, se algo nos soube bem, claro que quereremos mais. Mas, e quando notamos que o sabor se alterou? Justifica-se aceitar a amargura se ela vier a dobrar? Talvez a falta de doce até agrade a alguns. Outros nem notam a diferença, aliás. Quais são os critérios para determinar, objectivamente, o que tem ou não tem qualidade? Quem os decide?

Eu, obviamente. O protagonista da vida. O problema, infelizmente, é que há muitos eus, protagonistas de cada uma das suas histórias. E nem todos concordam. Debate-se, portanto, a qualidade versus quantidade. Discute-se se vale a pena continuar a ler a série espremida em cem volumes, da qual apenas quatro se tinham planeado antes do sucesso de vendas. Disputa-se se “mais” vale sempre a pena, independentemente de se “mais” sabe, realmente, a mais, ou a menos em maior número.

Perdoem-me se gostariam de ler mais de mim. Estaria a trair-me se fizesse esse esforço sem alma para o sustentar; daí aproveitar quando a ocasião aparece, mesmo que seja inoportuna. Se a falta de quantidade representa mais qualidade, isso já cabe a cada eu decidir.

Mas, pelo menos, agora já sabem que prefiro um honesto “mais”.

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