ADHD

Sim, eu sei que em português se diz TDAH, mas essa sigla só me lembra o “ta-da!” de uma revelação e, portanto, não a consigo levar a sério. Permitam-me, então, que me continue a referir à condição como "ADHD".

Há tempos, estava no mesmo campo dos que dizem que “agora é tudo hiperactivo”.

"Uma criança já não pode ser irrequieta; têm de inventar doenças para tudo!"

Há que admitir: muitas vezes, parece que só querem entupir os miúdos com comprimidos em vez de se darem ao trabalho de procurar a raiz de um problema. Essa minha opinião partia, no entanto e como penso ser o caso de outros, da ignorância. E, juntando às muitas outras ironias da vida, quem viria a descobrir ter ADHD era eu.

É incrível como os sinais estavam à vista de todos desde os primeiros dias deste blog. Passo a autocitar-me, no artigo intitulado Estado de Espírito, publicado em 2017:

"Quando me sento para escrever, muitas vezes não consigo. Às vezes estou a meio de algo importante e bate uma vontade incontrolável de escrever. E as palavras surgem sem parar; frases, parágrafos, capítulos. Às vezes dura semanas, mas nunca dura para sempre.

Agora apetece-me fazer isto, mas amanhã quero criar uma série de 20 episódios com um conceito completamente diferente. Hoje sinto-me extrovertido, vou dar 5 festas antes do fim do ano. Quem era aquela pessoa ontem que decidiu organizar tudo isto? Eu só quero estar sossegado a escrever."

Na altura, pensava tratar-se disso mesmo: de “estados de espírito”, talvez um pouco mais instáveis que o normal. Nos últimos anos, felizmente, o ADHD tem entrado cada vez mais no conhecimento público. Muitos na mesma situação estão agora a descobrir que as desculpas que inventavam para se tentar justificar têm uma designação concreta.

Claro que, com isso, veio por puxão uma onda de seguidores de modas; aqueles que têm bué distúrbios mentais porque são super neuro-divergentes e tal, e “todos os meus amigos têm, portanto eu também quero ter!” No entanto, não deixem que isso retraia de como inúmeras pessoas que sempre se sentiram aquém do seu potencial – sensação ampliada pelos famosos “serias um excelente aluno se te aplicasses!” – finalmente estão encontrar a resposta que tanto procuravam.

Recordo-me que até isto foi mencionado por uma comentadora aqui do blog, que também passo a citar:

"Para as nossas dúvidas, surgirão respostas... por vezes temos de dar tempo ao tempo, amadurecer."

E sim, já me estou a distrair do propósito deste texto, é assim. Acreditem ou não, desde que o comecei, já escrevi um outro artigo completamente irrelevante, que mais cedo ou mais tarde também virá aqui parar.

Aliás, sabem como escrevi isto? …ou qualquer produção escrita que faça? Pois eu digo. Primeiro, há que apontar excertos de todos os pensamentos que se atropelam; até porque, se for explorá-los por ordem, o mais certo é perder três ou quatro pelo caminho. Só depois se cosem as frases soltas pelas pontas que mais fazem sentido, até chegar a algo minimamente coerente. No fim, é polir; ler e rever até a energia se esgotar.

É uma das muitas estratégias que tenho.

O desafio não se altera com o diagnóstico. Não existe um momento de “Ah, então é isto! Agora já compreendo o que se passa, vou deixar de agir de tal forma!” Não é assim que funciona. Há quem pense que sim, ou pior, que é apenas preguiça. Só quem passa por isto a tempo inteiro compreende o esforço que exige. É mesmo preciso encará-lo, arranjar métodos que contornem os obstáculos e, mais vezes que não, remar contra a corrente.

Horários, calendários, alarmes, agendas, listas, já tentei de tudo. Só agora cheguei a algo que parece estar a funcionar: um jogo de cartas! Sim, é isso mesmo. Na minha busca por uma fonte consistente de motivação, inventei um sistema de pontos em que cada tarefa realizada tem um valor, respectivamente assinalado em cartas. Ao final do dia, vejo quantos pontos consegui no total, com base nas tarefas que realizei.

As pessoas têm dificuldade em compreender; não me admira que vocês tenham também. Costumo ouvir: “porque é que não fazes simplesmente a tarefa, em vez de andares a complicar com cartas e pontos?” O problema é precisamente esse: fazer a tarefa. É necessária motivação; é preciso enganar o cérebro e dar-lhe aquela injecção de dopamina canalizada. Os pontos têm tanto valor como um like numa rede social, ou seja, nenhum. Não interessa. Aqui entre nós (e que ele não nos ouça) desde que o ADHD pense que valem alguma coisa e isso o convença a agir, é tudo o que importa.

Se esta minha técnica servir a mais alguém, óptimo! Se não, não desistam de procurar algo que vos ajude a fazer o que realmente gostam e não são capazes… ou mesmo aquilo que tem de ser feito e já não dá para procrastinar mais.

E a quem, ainda assim, está farto de ouvir falar em hiperactividade e continua sem compreender, afinal, o que raio é isto, temos a sorte de viver num período em que todo o conhecimento do mundo está à distância de dois ou três cliques. Garanto-vos que, tal como eu, só têm a ganhar em procurá-lo.

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